As chuvas que caíram no Rio Grande do Norte neste início de ano provocaram o alagamento de toda a área plantada com jerimum na região do Vale do Punaú e uma perda de aproximadamente 80% na produção, o equivalente a 3.600 toneladas do produto. O prejuízo é estimado em no mínimo R$ 3 milhões e afeta diretamente 300 famílias que têm a cultura como principal fonte de renda no distrito e no entorno.
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Produtor usa barco para retirar os jerimuns que boiam em área de plantão inundada. Plantadores atribuem problemas ao assoreamento do rio Punaú
Produtor usa barco para retirar os jerimuns que boiam em área de plantão inundada. Plantadores atribuem problemas ao assoreamento do rio PunaúDistante cerca de 70 Km de Natal, o Vale do Punaú é distrito do município de Rio do Fogo e, segundo informações extra-oficiais, é a maior área produtora de Jerimum do RN. Por safra, são cerca de 250 hectares plantados e uma produção estimada entre 4 mil e 4,5 mil toneladas. Há pelo menos três anos, o “inverno” provoca, no entanto, perdas na região.
O presidente da Associação dos Produtores, João Batista Bandeira Gomes, explica que o problema é que os rios Punaú e Piranhas acabam transbordando com o excesso de chuvas e a água inunda a área. “Os rios são assoreados. E é por isso que ocorre os alagamentos”, diz ele, acrescentando que nenhuma providência foi tomada até agora para evitar que o problema se repita. E pegue os agricultores de surpresa. “Estamos sem saber o que fazer”.
Emanuel Amaral 
Prejuízo ainda não foi contabilizado pelos produtores

Prejuízo ainda não foi contabilizado pelos produtores
Como o “inverno” geralmente chega à região em março, os agricultores plantam na expectativa de colher entre o final de janeiro e fevereiro. Mas há três ou quatro anos as chuvas têm se antecipado e chegam no primeiro mês do ano. E quem plantou corre para salvar o máximo que conseguir.
O agricultor Domingos Dantas do Nascimento, 61, é um dos que, até ontem, estavam nessa corrida. Ele planta jerimum há 35 anos em Punaú e há três anos seguidos sofre com as perdas. Nesta safra, 100% dos 10 hectares que cultivou foram alagados. A área, plantada no final de outubro de 2010, deveria render ao menos 80 mil Kg. “Agora, estou tentando salvar pelo menos 10 mil Kg, mas talvez ninguém queira comprar, já que estava tudo dentro d´água”. A plantação de milho, que era feita consorciada com a do jerimum, também ficou comprometida. “Perdi tudo”, lamenta ele.
Despesa
Foram necessários quase seis dias de trabalho para retirar o que sobrou da produção dele de dentro d´água. O agricultor, que geralmente pagava quatro trabalhadores diaristas para ajudar no cultivo, precisou quadruplicar o número para conseguir colher o jerimum e transportar até em casa. Considerando que cada trabalhador recebe R$ 20, é possível dizer que foram mais de R$ 300 de despesa. “Conseguimos tirar 40 mil Kg. Mas só vai dar para aproveitar uns 10 mil Kg”, reforça ele, que esperava faturar entre R$ 35 mil e R$ 40 mil com a safra. Com o dinheiro, o plano era plantar bananas e investir no cultivo. “Agora não vai dar”.
Emanuel Amaral 
Jerimuns recuperados foram transportados para os caminhões

Jerimuns recuperados foram transportados para os caminhões
Sebastião Batista Barbosa, 54, é um dos maiores produtores da região e também sofreu mais uma vez este ano. Ele tinha 15 hectares plantados e a expectativa de colher uma média de 300 mil Kg. “Se salvar muito é 50%. Mas acho difícil”, calculou também ele, que recebia a ajuda de aproximadamente 30 agricultores para, em meio a água que chegava à altura da cintura, se tentar colher a maior parte possível da produção.
Otoniel Oliveira Fernandes, 38, perdeu 2 hectares que plantou no Assentamento Nova Dimensão, que faz parte do distrito de Punaú. Foram 20 mil Kg desperdiçados. “Ficou tudo perdido dentro da água”, afirma. O agricultor ainda conseguiu evitar a perda de 20 mil Kg da área mantida pelo padastro.
O destino da produção que não foi retirada é virar matéria orgânica ou ir para a lata de lixo.
posicionamento do governo
Até ontem o governo do estado não havia sido oficialmente notificado sobre a situação dos produtores de jerimum, nem pela prefeitura de Rio do Fogo nem pela Associação dos Produtores, de acordo com informações da Secretaria de Comunicação. “Se eles estiverem dentro do projeto garantia safra, há como serem inseridos dentro do seguro safra e aí passar a receber indenização pela perda da produção”, informou a secretaria. Apenas 10 ou 15 famílias, das 300 que estão ligadas à cultura na área, devem, porém, receber o seguro. As demais estão sem saber como vão compensar o prejuízo. O secretário adjunto de Agricultura, José Simplício de Holanda reforçou que a secretaria não havia sido informada sobre o assunto, mas que o governo sempre está aberto a analisar soluções. Já a Secretaria Estadual de Recursos Hídricos, informou que está sendo elaborado o Plano Estadual de Recursos Hídricos, instrumento que fará um mapeamento no Rio Grande do Norte identificando inclusive os problemas como o que ocorre na região de Rio do Fogo. A resposta sobre possíveis ações para conter as cheias do manancial só devem vir após a conclusão desse plano, que apontará as soluções.
Quebra já aumenta os preços na Ceasa
Com a safra comprometida, o consumidor já está pagando mais caro pelo quilo do jerimum. O Boletim Semanal de Variação de Preços da Central de Abastecimento (Ceasa RN) aponta que o quilo do jerimum comum - aumentou 20%, no período de 20 a 26 de janeiro, em comparação com a pesquisa desenvolvida entre os dias 7 e 12 deste mês. Já para a abóbora leite foi registrada uma alta de 5%. O quilo de R$ 0,60 passou para R$ 0,63.
João Bandeira, da Associação de Produtores, calcula que o quilo, que chega no supermercado por algo em torno de R$ 1,20, poderá subir pelo menos R$ 0,30 nos próximos dias. O preço aumenta porque a oferta do produto está reduzida. Mas não é o produtor que ganha com a valorização. “O ganho é do atravessador”.
Emanuel Amaral 
Jerimuns estavam boiando na água acumulada na plantação

Jerimuns estavam boiando na água acumulada na plantação
O atravessador é um intermediário entre o produtor e o vendedor final. Ele compra a produção do distrito e distribui para as Ceasas e outros pontos de venda. Atualmente, algo em torno de 90% da produção é levada para estados como Pernambuco, Rio de Janeiro e Ceará. O restante fica no estado. A expectativa dos produtores era vender o quilo por cerca de R$ 0,40. Mas com o comprometimento da produção, já está difícil conseguir despachar a mercadoria por até menos que isso. “Há quem queira pagar só R$ 0,35”, observa João Gomes.
Produção que se salvou fica amontoada
Com o alagamento das áreas de produção, o pé de jerimum morre e a “pele” do fruto começa a soltar, provocando o apodrecimento mais rápido. Para evitar um prejuízo maior, os produtores têm trabalhado em mutirão e contado com o auxílio de botes e caiaques para conseguir acessar as áreas de plantio Os frutos que conseguem retirar, formam verdadeiras montanhas em frente às casas e dentro das garagens. Outra parte está sendo levada para um pátio anexo à associação dos produtores. É nesses pontos que o amontoado de jerimuns fica à espera dos atravessadores.
Além da redução dos ganhos, alguns agricultores que pediram empréstimo para investir no cultivo estão preocupados porque com menos dinheiro, não sabem como irão pagar a parcela dos financiamentos que adquiriram. “Já cobramos desde o governo passado o desassoreamento do leito do rio, para evitar que o probelma seja frequente. Mas nada foi feito. Lá como, é a principal atividade, a continuidade dos prejuízos acaba gerando prejuizo do investimento, desestimulo e em alguns casos até o abandono da atividade", diz o assessor de Política Agrícola da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do RN (Fetarn)", Marcos George de Medeiros. A Fetarn deverá ir hoje a Punaú fazer um levantamento das perdas.
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