Felipe Gurgel - repórter
A briga é desigual. Enquanto times com mais expressão no cenário do futebol nacional recebem uma fatia maior das cotas de televisão, ABC e América ficam com uma quantia menor para disputar a série B do Brasileiro. Enquanto equipes como Vitória, Atlético/PR e Goiás, todos disputando a segunda divisão do brasileiro vão receber em 2012, algo em torno de R$ 18 milhões, os clubes do Rio Grande do Norte não devem receber 10% desse valor, cada. Então, como fazer para competir com esses adversários, de igual para igual, dentro de campo? O primeiro passo, para os dois maiores clubes do estado, foi implantar uma política mais agressiva no que diz respeito aos seus associados.
O ABC, no início dessa década, lançou o projeto sócio Mais Querido, visando aumentar seu quadro de associados. Com o rendimento no time dentro de campo, culminando com o título da série C do Brasileiro, o número de sócios deu um salto considerável, atingindo, atualmente, a marca de 11 mil torcedores cadastrados.
O América se espelhou no seu rival e lançou, em 2011, o projeto Sócio Dragão. Até o fim do mês de maio, o clube já contabilizava algo em torno de 2.100 sócios. Um número que parece pequeno, se levarmos em consideração o tamanho da torcida americana, mas, que está dentro das previsões alvirrubras, de acordo com Mark Pinheiro, gerente da Premier Group, empresa que gerencia o projeto de sócios do América. "A grande vantagem do nosso projeto é de que não trabalhamos com boleto bancário. Então, esse número é de sócios adimplentes, todos com o pagamento em dia", afirma Pinheiro.
Mas, quem são esses sócios dos maiores clubes do Rio Grande do Norte. A TRIBUNA DO NORTE traçou um perfil sobre os associados de ABC e América e descobriu que, tanto os sócios abecedistas, quanto americanos, são parecidos, mas, com algumas diferenças pontuais.
Em ambos os times, os homens são predominantes nos quadros de associados, com a idade variando entre 25 e 35 anos de idade. "Os sócios aqui em Natal estão muito vinculados ao torcedor que vai a campo, assistir os jogos. Isso é um erro. Quem ama o clube, tem que estar junto sempre, independente se o time está jogando ou não. Vejo aqui no Rio Grande do Norte, que os sócios são muito sazonais", revela Regilene Finamor, que gerecia a empresa Fã Clube, de Minas Gerais, responsável pelo projeto de sócio do ABC.
Tanto a gerente alvinegra, quanto o representante americano, explicam o que seria o sócio sazonal. De acordo com eles, são aqueles torcedores que pagam suas mensalidades apenas nos períodos que o time está jogando. O que acaba prejudicando o planejamento do clube no decorrer da temporada.
"Infelizmente, alguns torcedores deixam de pagar suas mensalidades nos meses de dezembro e janeiro, já que não tem jogos. Isso acarreta um prejuízo muito grande para os clubes, já que sempre tem rescisões de contratos, premiações, 13º salário, e novas contratações. Some-se isso, ao fato de não ter a renda das partidas, a situação fica complicada. O torcedor tem que amar, acima de tudo, o clube e não apenas o time", pondera Mark Pinheiro, do Sócio Dragão.
Por esses motivos, a inadimplência é um tema quase que proibido pelos dirigentes alvinegros e alvirrubros. Mas, de acordo com dados repassados pelas empresas que gerenciam seus projetos de sócios, a diferença entre ABC e América são abissais.
Enquanto no Frasqueirão, a inadimplência atinge o patamar de quase 40%, no América esse número é zero. A diferença, segundo os envolvidos nos projetos de sócios dos clubes, é um só: o uso do boleto bancário.
"O Premier Group nos disse, que, aqui em Natal, seria suicídio utilizar boleto bancário, por causa da inadimplência. Por isso optamos pelo cartão. No América, todos os sócios são adimplentes", afirmou Alex Padang, presidente americano.
Rubens Guilherme Dantas, mandatário do ABC, não se mostra preocupado com o alto índice de inadimplência por parte dos associados alvinegros. "Esse número de 40% de sócios que não honram seus compromissos, é uma situação que já prevíamos. A perda do título também é um dos fatores dessa inadimplência. Mas, temos alguns outros projetos, para aumentar ainda mais o quadro de associados do ABC", disse Rubens Guilherme.
Bons resultados em campo geram mais vendas
O aumento nos números de sócios do América tem uma explicação: a conquista do título estadual desse ano, depois de oito anos de jejum. De acordo com Mark Pinheiro, os dias entre o estadual e o início da série B do Brasileiro foi a melhor desde a implantação do projeto Sócio Dragão. " Nunca tivemos uma semana tão boa quanto aquela. O título impulsionou as vendas do sócio dragão", revelou Pinheiro.
O presidente americano, Alex Padang, também compartilha com o pensamento de Pinheiro. Para ele, que vive o dia a dia do América há mais de 20 anos, nunca o clube teve tantos sócios. "Em 2007, com o América na série A do Brasileiro, não tínhamos nem 700 sócios. Com a ótima campanha na série C do ano passado, o título estadual desse ano e a grande campanha que o time vem fazendo nesse início de série B, mais que triplicamos o número de associados. Isso mostra que o torcedor está tendo a consciência de que chegou o momento de ajudar o clube. E eles estão respondendo bem, mesmo sabendo que poderia ser melhor", alfineta Padang.
Desde que assumiu a presidência do América, Padang vem cobrando dos torcedores que se associem ao clube, para que o número de sócios atinja os quatro mil associados, o que é considerado ideal, de acordo com o mandatário rubro, para se ter uma receita mensal, de algo em torno de R$ 160 mil. O que, segundo ele, daria para contratar reforços de peso para o time. Agora, o discurso do presidente é mais contundente. Mesmo com o aumento considerável de sócios, Alex Padang afirma que, caso esse número não seja atingido até o mês de julho desse ano, dispensas vão acontecer. "Não temos como arcar com os salários dos jogadores, sem o dinheiro do sócio dragão. Caso não apareça nenhum patrocínio daqui para julho, e o número de associados não atinja o que era previsto, algumas dispensas vão acontecer", afirmou Padang.
No ABC a situação também não é tão confortável como nas temporadas passadas. Com um início irregular em 2012, perdendo o estadual para o América, em pleno Frasqueirão e uma campanha abaixo do esperado na série B do Brasileiro, os sócios torcedores se afastaram. Dos 11 mil cadastrados, menos da metade mantém sua fidelidade, pagando as mensalidades em dia. Com o seu mandato chegando o fim esse ano, Rubens Guilherme Dantas, presidente alvinegro, sabe que aumentar o número de sócios é complicado, mas, que se daria por satisfeito se, ao menos, conseguisse manter o quadro atual. "Nosso objetivo é sempre aumentar o quadro de associados, mas, se eu puder terminar a minha gestão com o mesmo número de sócios cadastrados , já vai ser ótimo", revelou o mandatário abecedista. Para aumentar o número de associados, os dois clubes apostam no mesmo projeto, que é o sócio kids.
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