domingo, 8 de julho de 2012

Cantei para o jovem moreno antes dele ser assassinado

Por Zilda

Sou da da cidade de Natividade e cantei para o jovem moreno, alto, bonito e de olhos tristes na grade da cadeia. Voltava, duas amigas e eu, da missa do galo na passagem de ano de 1972 para 1973.

Cantei: "Feliz 73 eu desejo a você, não esmoreça ergue a cabeça, feliz 73 para você". Ele estava sentado numa rede, cabisbaixo e só levantou os olhos e olhou pra nós. Poucas horas depois ele estava enforcado com a corda que recebeu de outra amiga, para armar a rede. Os pés estavam a poucos centímetros do chão porque ele era alto.

Na parede ao fundo da cela estava escrito, com pedaços de uma caixa de fósforo: REVLUÇÃO(assim mesmo, faltava o O, de revolução).

Muitas fotos dele em tamanho 3X4 e 5X7 foram mostradas.

Durante o dia, depois que chegaram pessoas de avião, não sei de onde, liberaram o corpo para visitação pública, dentro da própria cela. O sulco profundo e negro no pescoço deixou-me muito impressionada. Toquei no rosto gelado dele. Nunca vou me esquecer, à noite, durante meu sono, senti uma espécie de abraço dele. Senti a sensação de um braço gelado ao redor do meu corpo. Acho que foi me agradecer pela visita e pela música que cantei pra ele.

Todas as equipes de busca que foram ao cemitério de Natividade, infelizmente, não en contraram nem vestigio do coropo dele.

Ainda hoje, passados 40 anos ainda me lembro do local onde ele foi sepultado. A pessoa que poderia dar alguma informação sobre um possivel remanejamento do cadáver seria o delegado Pedrão que o prendeu, que também já é falecido. O cabo, à época, hoje meu cunhado Osvaldo, não sabe se houve remoção do corpo. Enterrado lá, foi, se não encontram os ossos atualmente, ninguém conseguiu explicação para tal episódio. Em outro comentário contarei como se deu a prisão dele, já que antes de ser preso estive a poucos metros dele, sem saber de quem se tratava.

O início da história: Era por volta de 16:40hs, eu estava na porta de minha casa, encostada na parede, do lado de fora, esperando a hora do inicio do jogo de vôlei, na única quadra da cidade, na praça, em frente à cadeia(atualmente transformada em museu da cidade). Minha mãe chegou e, de pé, pelo lado de dentro da grade de madeira que cercava uma pequena área, olhou para o lado direito de onde eu estava e disse: "coitado, aquele deve estar morto de fome porque tá comendo aquele pão ruim com a boca tão boa!...".

Eu olhei e vi aquele rapaz muito jovem, moreno, alto, a uns três metros de mim, realmente comendo com muita vontade o tal pão. Não comentei nada. Chegou a hora de ir para o jogo, por volta de 17:00hs, eu passei por ele, mas como não sabia de quem se tratava, não atentei para nada. (Naquela época, até rádio era difícil de se sintonizar em minha cidade.

Ouvíamos programas de , Aroldo de Andrade, Paulo Diniz, Barros de Alencar, na Globo e o inesquecível programa de Hélio Ribeiro na Rádio Bandeirantes. Mas nada do que estava acontecendo no mundo). Pouco tempo depois vi um movimento estranho vindo da "rua de baixo" como chamávamos: o delegado Pedrão e policiais da cidade escoltavam o tal rapaz e um punhado de crianças ao redor. Paramos o jogo para saber do que se tratava. Osvaldo, um dos policiais, passou em frente à minha casa,e viu o tal jovem e o reconheceu como guerrilheiro, segundo palavras dele, pelas botas que usava. Era uma das características que os militares passavam para o interior para identificar os guerrilheiros do Araguaia perdidos nas redondezas era o uso das tais botas. Chamou o delegado e o prenderam. Naquela época, na cidade de Pindorama também prenderam guerrilheiro - não sei se um ou mais.

Alguns dados que minha memória guardou: o rapaz estava com 24 anos, estudante de Direito, paulista.

Algumas pessoas foram chamadas para depor: a amiga que deu a rede e as cordas para ele se acomodar; uma moça-cujo pai era da cidade, professor em Goiãnia, mas ela já nascera na capital - que durante o enterro chorou. Isso chamou a atenção dos militares que estavam por lá.

Na mesma madrugada em que o rapaz foi encontrado enforcado na cadeia, faleceu um idoso da cidade. O cortejo do rapaz era o mesmo do idoso da cidade. As pessoas acompanhavam os dois féretros. A deferença era que um foi levado antes para a Igreja Matriz e o rapaz por ser "suicida" não teve o mesmo tratamento. No mais, a população, ou melhor, nós que não sabiamos do que se tratava acompanhamos os dois até o cemitério e o vimos ser enterrado.

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