domingo, 14 de outubro de 2012

Joaquim Barbosa, nosso Maquiavel



Aproveitemos o interlúdio entre o fim do primeiro turno e o começo do segundo para analisar episódio que furtou ânimo de comentá-lo aos dois lados da guerra política entre centro-esquerda e centro-direita que o Brasil vem travando desde a última década do século passado. Refiro-me à recente entrevista do ministro Joaquim Barbosa à Folha de São Paulo.

Uma observação antes de prosseguir: se você não leu essa entrevista, não está bem informado sobre política. De qualquer forma, reproduzo o material ao fim do post.

Quem leu a entrevista, sabe a que me refiro. Barbosa conseguiu, em uma tacada só, fazer como o ex-presidente Fernando Collor quando confiscou a poupança dos brasileiros lá em 1990, deixando a esquerda perplexa e a direita indignada – ainda que, com o relator do mensalão, possa ser o contrário…

Ou não, porque talvez o novo “herói” da mídia tenha deixado esquerda e direita, simultaneamente, tão perplexas quanto indignadas.

Não deixa de ser alentador que alguém como Barbosa demonstre inteligência tão brilhante em um momento em que, como em 2010, o racismo, o preconceito e a hipocrisia afloram por ação do acirramento da guerra político-ideológica que, a partir deste momento, travará sua batalha mais renhida na Capital Bandeirante.

Barbosa desmonta teorias que a mesma ultradireita nazifascista que saiu da toca em 2010 volta a espalhar sobre negros e nordestinos. Inclusive, escrevo logo após ter visitado um site de evidente teor neonazista – ainda que não aluda a esse movimento degenerado – e que tece teorias malucas sobre inferioridade intelectual e comportamental dos negros.

Outra observação: se algum membro do Ministério Público ou qualquer outra autoridade competente vier a ler este post, para conhecer o tal site racista basta clicar aqui.

Essa teoria pervertida se torna ainda mais delirante quando se vê alguém como Joaquim Barbosa, o garoto pobre, filho de pedreiro, que se tornou uma sumidade do Direito e um dos brasileiros mais cultos do cenário público.

Não é por outra razão que sou daqueles que tentam se conter diante do desempenho decepcionante que esse vencedor, essa verdadeira sumidade intelectual, esse guerreiro destemido está tendo em relação à parcela dos réus do julgamento do mensalão cuja presunção de culpa continua amparada em mera subjetividade, ainda que a parcela maior desses réus tenha culpa que esta página jamais negou por sempre ter dito que, nesse processo, há inocentes e culpados.

Preocupa-me, entretanto, muita coisa que tenho lido sobre Barbosa nas redes sociais. Em alguns momentos, a indignação (justa) com a fúria condenatória indiscriminada de Barbosa descamba para a seara do preconceito, de forma que sugiro a quem esteja criticando o relator do mensalão que pense no que vai dizer antes de criticá-lo.

Mas o que foi que esse homem intrigante disse à Folha para merecer análise tão cuidadosa? Como foi que ele deixou os dois lados (mídia tucana, PSDB, PT e militância petista) tão cheios de dedos diante de suas palavras?

Barbosa conseguiu provar que não faz o que faz por medo da mídia. Surpreendeu o jornal que, desavisado, deu-lhe espaço: declarou que a imprensa adota “dois pesos e duas medidas” ao se referir a escândalos de corrupção petistas e tucanos e declarou que, após analisar todo o inquérito do mensalão, votou em Dilma Rousseff.

E que, mais importante, antes votara duas vezes em Lula, a quem encheu de elogios.

Barbosa, pois, mandou um recado aos amiguinhos oficiosos do tal site neonazista. Agora, sabem que não devem contar consigo para envolver Lula no mensalão 2 com o qual andam sonhando.

Todavia, agindo assim Barbosa adquiriu certa respeitabilidade para sua fúria condenatória, a qual este blog jamais atribuiu ao medo da mídia que assola seus pares e que não afeta a si, como fica sobejamente provado pela entrevista que deu, sendo sua motivação, na opinião do blogueiro, absolutamente personalista, revelando desejo de se projetar no cenário político nacional.

Com a entrevista desconcertante que deu, entretanto, Barbosa, sabiamente, afastou-se de grupos midiáticos de ultradireita como a revista Veja, que tem em seu quadro societário um grupo empresarial sul-africano, o grupo Naspers, estreitamente vinculado ao Partido Nacional, que legalizou o regime do Apartheid na África do Sul.

Sábia decisão de Barbosa, que apareceu na última capa da Veja como “super-herói” das elites brancas brasileiras. Afinal, o último “herói” dessa publicação, o “mosqueteiro da ética” Demóstenes Torres, não colheu bons frutos de sua aliança com ela…

Não posso, por essas e por outras razões, deixar de me encantar com a inteligência privilegiada de Joaquim Barbosa. Estou me divertindo com o “silêncio” ensurdecedor da mídia golpista (inclusive da própria Folha) diante da acusação de ser tucana que seu “herói” lhe fez do alto da isenção que seu comportamento ao julgar o mensalão lhe confere.

A verdade sobre esse personagem interessantíssimo que é Joaquim Barbosa? Fica difícil decretar “verdades” sobre personalidade tão complexa, mas o que se pode dizer é que sua inteligência, sua coragem e seu maquiavelismo o credenciam para altos voos políticos. Só não posso garantir que venha a votar nele um dia…

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