A morte trágica do jogador Neto Maranhão, do Potiguar de Mossoró, ontem, após sofrer uma parada cardíaca durante o treino, pode mudar os rumos do Campeonato Estadual deste ano. O Sindicato dos Atletas de Futebol Profissional do Rio Grande do Norte (Safern) afirma que a Federação Norte-Riograndense de Futebol (FNF) tem responsabilidade sobre a tragédia ocorrida em Mossoró e vai pedir a paralisação da competição antes mesmo dela ser iniciada, através de uma ação junto ao Ministério Público do Trabalho.
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Neto Maranhão foi socorrido pelos companheiros no Thermas
Neto Maranhão foi socorrido pelos companheiros no Thermas"Foi preciso morrer um o jogador para que as pessoas olhassem para o que está acontecendo. Existem 400 jogadores profissionais no Estado e a minoria tem seus direitos garantidos pelos clubes. Isso não pode acontecer e a Federação tem que ser responsabilizada sim, sobre o que ocorreu. Já entrei com essa ação junto ao Ministério Público do Trabalho e tentar suspender o campeonato, antes que morra mais gente, que é o que vai acontecer, se as coisas continuarem desse jeito", afirmou Felipe Augusto, advogado e presidente da Safern.
O presidente da FNF, José Vanildo, explicou que a Federação não pode ser responsabilizada pela morte do jogador, já que, de acordo com ele, é responsável apenas pela organização do campeonato e seus jogos. A relação entre clube e jogador, de acordo com Vanildo, é, exclusivamente trabalhista. "A obrigação da Federação é fiscalizar os clubes e dar toda estrutura na hora das partidas, como médicos, ambulâncias e isso nós fazemos. Para assinar contrato, o clube tem que mostrar as assinaturas do presidente e do médico responsável. Qualquer coisa além disso, é estritamente trabalhista e tem que ser resolvido entre jogador e clube", disse o presidente da FNF.
Posição que Felipe Augusto discorda. Para ele, como a Federação arrecada com a transferências e acertos de contratos de jogadores, ela deveria sim, fiscalizar e obrigar que os clubes mantenham, no mínimo, um médico durante os treinos e não apenas nas partidas. "A Federação arrecada com os jogadores e não quer ter responsabilidade sobre eles? Na hora que acontece uma tragédia dessas, todo mundo quer 'tirar o corpo fora', mas não pode ser assim. Tem que assumir os problemas. Já venho dizendo há bastante tempo que uma tragédia dessas ia acontecer e ninguém dava atenção. Agora, o problema está aí e não vejo ninguém querendo resolver", desabafou o mandatário da Safern.
Outro problema questionado por Felipe Augusto diz respeito as carteiras de trabalho dos jogadores. Segundo ele, poucos são os clubes que assinam o documento, deixando os atletas sem qualquer tipo de assistência, como, no caso de Neto Maranhão, um seguro de morte, previsto na Lei Pelé. "Infelizmente os clubes, mesmo assinando um Termo de Ajustamento de Conduta no ano passado, pouco fazem relação aos atletas. As carteiras não são assinadas e a de de Neto Maranhão deve ser uma dessas. Agora, a família do jogador vai ficar desassistida , já que ele não deveria ter vínculo empregatício com o Potiguar de Mossoró. Só quem sofre é o jogador", afirmou.
O Potiguar de Mossoró enviou um ofício para a Federação Norte-riograndense de Futebol, pedindo o adiamento da partida de estreia do time no campeonato estadual, domingo, contra o Potyguar de Currais Novos, alegando que o elenco estaria abalado com a morte de Neto Maranhão. O presidente da FNF, José Vanildo, revelou que ainda não tinha recebido o comunicado e que iria analisar o pedido, antes de tomar alguma decisão.
"Ainda não recebi qualquer ofício do Potiguar de Mossoró em relação ao adiamento da partida. Sei da dor que eles devem estar sentido, do momento trágico que estão passando, mas, temos que analisar o calendário. O que posso adiantar é que todos os jogos da primeira rodada, que vai ser chamar Neto Maranhão, como uma forma de homenagear o atleta, vão ter um minuto de silêncio antes do início", finalizou José Vanildo.
Lei obriga clube a realizar exames médicos nos atletas
O artigo 34 da Lei 9.615/98, com redação dada pela Lei 9.981/00, prevê que o exame médico é um dever do clube. No entanto, na maioria dos pequenos clubes do País, essa tarefa é repassada aos próprios atletas, o que muitas vezes não acontece devido ao custo do exame.
No Ceará, o jornal O Povo publicou recentemente uma matéria que revela a falsificação de atestados médicos. Segundo o texto a obtenção do atestado liberatório ocorre mesmo sem consulta ou pela falsificação da assinatura de um médico. "Conheço gente que fez. Inclusive daqui", contou um jogador à reportagem de O Povo, com o nome devidamente preservado. Outro completou. "Sempre que preciso consigo um atestado com um amigo lá do bairro".
A investigação do caso do jogador do Potiguar de Mossoró será feita pelo Ministério Público do Trabalho daquela cidade. O processo impetrado ontem pelo Sindicato dos Atletas foi encaminhado com pedido de urgência para a "capital do Oeste".
Em Natal, o pedido de suspensão do Campeonato será avaliado e o MPT observará relação entre o que aconteceu em Mossoró e os clubes de Natal, que assinaram recentemente um Termo de Ajustamento de Conduta no qual os clubes se comprometem, entre outras coisas, a realizar os exames médicos necessários.
Por ser um clube mossoroense e não estar na circunscrição do MPT de Natal, o Potiguar não assinou o documento.
O que diz a lei
Art. 34. São deveres da entidade de prática desportiva empregadora, em especial: (Redação dada pela Lei nº 9.981, de 14.7.2000)
III - submeter os atletas profissionais aos exames médicos e clínicos necessários à práticadesportiva. (Inciso incluído pela Lei nº 9.981, de 14.7.2000)
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