Embora o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tenha sido escolhido como um dos alvos preferenciais da oposição, com direito a editoriais na Folha e no Estado deste domingo, a presidente Dilma redobra a confiança em seu auxiliar ao garantir que ele terá autonomia total na escolha do novo secretário-executivo, que substituirá Nelson Barbosa; número 2 da Fazenda tem influência direta sobre os bancos oficiais, que se tornaram um importante instrumento da política anticíclica
247 – A presidente Dilma Rousseff deu um sinal eloquente de confiança a Guido Mantega, apesar de duras críticas da imprensa. Só neste domingo 12, editoriais dos principais jornais de São Paulo miraram seus canhões para o ministro da Fazenda. A Folha de S.Paulo afirma que Mantega, que "não se distingue por poupar otimismo", mantém uma projeção "irreal" de crescimento econômico de 3,5%. Já Estadão escreve que o governo "tenta encobrir um problema que preocupa cada vez mais o empresariado e está cada vez mais longe de ser passageiro", os maus resultados da balança comercial.
Mesmo assim, a presidente redobrou a confiança em seu auxiliar ao dar o aval para que ele escolha o sucessor do secretário-executivo Nelson Barbosa, na Fazenda desde 2006, mas que anunciou sua saída para julho. Não é a primeira vez que Dilma ignora pressões para defender Mantega.
No início do ano, diante de outra série de críticas, desta vez acusado de realizar as chamadas "manobras fiscais" para cumprir a meta de superávit primeiro de 2012, a presidente disse com todos as letras que o ministro não corria o risco de perder seu cargo.
Leia abaixo notas sobre o aval de Dilma na coluna Painel, da jornalista Vera Magalhães, deste domingo:
E abaixo, os editoriais da Folha e do Estadão:
Figurino ultrapassado - Folha de S.Paulo
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não se distingue por poupar otimismo. Para ele, a economia brasileira está em retomada, com inflação e contas públicas sob controle. Fica mantida sua projeção irreal de crescimento do PIB em 3,5%, neste ano, e 4,5% em 2014.
Os dados insistem em desmenti-lo. A indústria cresceu 0,8% no primeiro trimestre, um bom resultado. Mas a alta se concentrou nas vendas de caminhões e máquinas agrícolas -e, no primeiro caso, houve só a reversão do tombo de 2012.
Outros setores seguem paralisados. O aumento da participação de importados nas cadeias de produção persiste. Os dados preliminares de abril são fracos, especialmente o índice de confiança industrial da Fundação Getulio Vargas. Os empresários permanecem temerosos, ressabiados.
O consumo também perdeu fôlego. O surto inflacionário dos últimos seis meses, concentrado nos alimentos, corroeu a renda disponível. Os salários reais estão perto da estagnação. O emprego tem crescido pouco nos últimos meses.
É esperada uma melhora nos próximos tempos com a reversão da alta de alimentos, já em curso. A inflação acumulada em 12 meses, medida pelo IPCA, deve recuar de 6,49% em abril para 5,5% ou 6% até o final do ano.
Algum consumo adicional resultará disso, certamente, mas as dificuldades da indústria permanecerão. O problema é estrutural.
Já são frequentes projeções de crescimento do PIB abaixo de 3% neste ano, uma repetição das sucessivas revisões para baixo ao longo do ano passado.
O ministro Mantega também afirmou que a criação de postos de trabalho é tão ou mais importante que o PIB. É inegável, contudo, que o pífio desempenho brasileiro, confirmando-se como duradouro, cedo ou tarde acabará por afetar o nível de emprego.
Do lado das contas públicas, tampouco se encontram razões para otimismo. Há visível deterioração do endividamento público. É preocupante o fim do compromisso com a meta de superavit primário, que o governo ora se inclina a submeter ao crescimento da economia e não mais à evolução da dívida. Vários analistas já abandonam o prognóstico (que vinha de anos) de redução paulatina da dívida como proporção do PIB.
A verdade, que Mantega teima em obscurecer, é que os fundamentos da economia brasileira pioram.
Não se trata de catastrofismo. A questão é que o próprio avanço inegável das duas últimas décadas -e as mudanças do cenário mundial- trazem desafios novos para o país. E a equipe econômica da presidente Dilma Rousseff só tem respostas velhas para eles.
A crise que o governo não vê - Estadão
Ao minimizar os maus resultados da balança comercial que de janeiro a abril- acumulou um déficit de US$ 6,15 bilhões, o maior da história para o período como fez na segunda-feira em São Paulo, a presidente Dilma Rousseff tenta encobrir um problema que preocupa cada vez mais o empresariado e está cada vez mais longe de ser passageiro.
"Qualquer oscilação na balança comercial é apenas uma oscilação", disse tautologicamente a presidente, na posse da nova diretoria da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo, para demonstrar despreocupação com o desempenho do comércio exterior, e uma atitude que pode ter conseqüências e não serão positivas para o Brasil.
Nessa questão, quanto mais despreocupado estiver o governo tanto pior para o País, pois cada vez menos os responsáveis pelas políticas públicas voltadas para o setor produtivo conseguirão entender que o problema não é ocasional. Por sua persistência e profundidade, começa a transformar-se em problema estrutural da economia brasileira.
Ainda há tempo para evitar que a situação piore tanto que fique muito mais difícil corrigi-la, mas é preciso que, primeiro, o governo entenda o que ocorre e, depois, admita que o problema existe e é grave e comece a agir na direção correta.
São muitos os fatores que afetam o setor produtivo brasileiro, sobretudo a indústria de transformação, que vem tendo dificuldades cada vez maiores para enfrentar os competidores, tanto no mercado externo como no interno.
São muito expressivos os números que mostram a progressiva perda de competitividade dos produtos manufaturados brasileiros. O jornal O Globo mostrou que, no ano passado, o setor de bens manufaturados registrou um déficit comercial de US$ 94,9 bilhões. Não se trata de uma oscilação, mas de um processo que começou há seis anos (em 2006, o setor registrou superávit comercial, que, naquele ano, alcançou US$ 5,2 bilhões), intensificou-se em conseqüência da crise mundial iniciada em 2008 e mantém-se ativo. Os resultados vêm piorando de maneira persistente.
A crise mundial aprofundou uma tendência iniciada em 2007 (no primeiro trimestre daquele ano, a balança da indústria de transformação registrou saldo positivo), fazendo crescer os déficits até os níveis observados atualmente.
De acordo com um relatório divulgado há dias pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (ledi), o crescimento do déficit comercial da indústria de transformação nesse período não ocorreu de maneira homogênea. Em 2010 e 2011, o saldo negativo foi causado sobretudo pelo rápido aumento das importações, fato que ficou conhecido como "invasão" do mercado por produtos estrangeiros. Embora as exportações continuassem a crescer, as importações cresceram a velocidades bem maiores.
Em 2013, no entanto, embora as importações continuem a crescer, as exportações começaram a diminuir, o que pode tornar ainda maiores os déficits do setor. Essa tendência é observada em três dos quatro segmentos da indústria classificados de acordo com a densidade tecnológica dos produtos. A exceção é a indústria de baixo conteúdo tecnológico, cuja linha de produção inclui itens como alimentos industrializados, bebidas, fumo, produtos de madeira, celulose, papel.
Quanto maior o conteúdo tecnológico, mais rápida tende a ser a deterioração da balança comercial. A balança conjunta da indústria de alta intensidade tecnológica - que atende aos mercados que mais crescem em todo o mundo - e de média intensidade, por exemplo, registrou déficit de US$ 16,3 bilhões no primeiro trimestre, 22,6% maior do que o dos três primeiros meses de 2012.
As causas da perda de competitividade da indústria são conhecidas. Carga tributária excessiva, graves deficiências de infraestrutura, ausência de política efetiva de comércio exterior, escassez cada vez mais aguda de mão de obra adequadamente preparada, entre outras. Sobre isso, o governo nada diz.
Mesmo assim, a presidente redobrou a confiança em seu auxiliar ao dar o aval para que ele escolha o sucessor do secretário-executivo Nelson Barbosa, na Fazenda desde 2006, mas que anunciou sua saída para julho. Não é a primeira vez que Dilma ignora pressões para defender Mantega.
No início do ano, diante de outra série de críticas, desta vez acusado de realizar as chamadas "manobras fiscais" para cumprir a meta de superávit primeiro de 2012, a presidente disse com todos as letras que o ministro não corria o risco de perder seu cargo.
Leia abaixo notas sobre o aval de Dilma na coluna Painel, da jornalista Vera Magalhães, deste domingo:
Mantega recebe aval de Dilma para escolher substituto de número dois
O substituto Guido Mantega recebeu aval de Dilma Rousseff para escolher o sucessor de seu número dois, Nelson Barbosa. O secretário-executivo da Fazenda, que deixará o cargo até julho, havia sido uma opção pessoal da presidente no início do governo.
Agora, Mantega convenceu a petista de que precisa de um funcionário de sua estrita confiança, uma vez que entre as funções do auxiliar está a de ser o homem forte do governo em instituições como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
Menos um Para auxiliares do Palácio do Planalto, a carta branca de Dilma ao ministro da Fazenda encerra a chance do secretário do Tesouro, Arno Augustin, substituir Barbosa. Ele é hoje um dos principais interlocutores da presidente no governo.
Vem por aí Mantega deverá aproveitar a troca na secretaria-executiva para promover outras mudanças no Ministério da Fazenda.
E abaixo, os editoriais da Folha e do Estadão:
Figurino ultrapassado - Folha de S.Paulo
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não se distingue por poupar otimismo. Para ele, a economia brasileira está em retomada, com inflação e contas públicas sob controle. Fica mantida sua projeção irreal de crescimento do PIB em 3,5%, neste ano, e 4,5% em 2014.
Os dados insistem em desmenti-lo. A indústria cresceu 0,8% no primeiro trimestre, um bom resultado. Mas a alta se concentrou nas vendas de caminhões e máquinas agrícolas -e, no primeiro caso, houve só a reversão do tombo de 2012.
Outros setores seguem paralisados. O aumento da participação de importados nas cadeias de produção persiste. Os dados preliminares de abril são fracos, especialmente o índice de confiança industrial da Fundação Getulio Vargas. Os empresários permanecem temerosos, ressabiados.
O consumo também perdeu fôlego. O surto inflacionário dos últimos seis meses, concentrado nos alimentos, corroeu a renda disponível. Os salários reais estão perto da estagnação. O emprego tem crescido pouco nos últimos meses.
É esperada uma melhora nos próximos tempos com a reversão da alta de alimentos, já em curso. A inflação acumulada em 12 meses, medida pelo IPCA, deve recuar de 6,49% em abril para 5,5% ou 6% até o final do ano.
Algum consumo adicional resultará disso, certamente, mas as dificuldades da indústria permanecerão. O problema é estrutural.
Já são frequentes projeções de crescimento do PIB abaixo de 3% neste ano, uma repetição das sucessivas revisões para baixo ao longo do ano passado.
O ministro Mantega também afirmou que a criação de postos de trabalho é tão ou mais importante que o PIB. É inegável, contudo, que o pífio desempenho brasileiro, confirmando-se como duradouro, cedo ou tarde acabará por afetar o nível de emprego.
Do lado das contas públicas, tampouco se encontram razões para otimismo. Há visível deterioração do endividamento público. É preocupante o fim do compromisso com a meta de superavit primário, que o governo ora se inclina a submeter ao crescimento da economia e não mais à evolução da dívida. Vários analistas já abandonam o prognóstico (que vinha de anos) de redução paulatina da dívida como proporção do PIB.
A verdade, que Mantega teima em obscurecer, é que os fundamentos da economia brasileira pioram.
Não se trata de catastrofismo. A questão é que o próprio avanço inegável das duas últimas décadas -e as mudanças do cenário mundial- trazem desafios novos para o país. E a equipe econômica da presidente Dilma Rousseff só tem respostas velhas para eles.
A crise que o governo não vê - Estadão
Ao minimizar os maus resultados da balança comercial que de janeiro a abril- acumulou um déficit de US$ 6,15 bilhões, o maior da história para o período como fez na segunda-feira em São Paulo, a presidente Dilma Rousseff tenta encobrir um problema que preocupa cada vez mais o empresariado e está cada vez mais longe de ser passageiro.
"Qualquer oscilação na balança comercial é apenas uma oscilação", disse tautologicamente a presidente, na posse da nova diretoria da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo, para demonstrar despreocupação com o desempenho do comércio exterior, e uma atitude que pode ter conseqüências e não serão positivas para o Brasil.
Nessa questão, quanto mais despreocupado estiver o governo tanto pior para o País, pois cada vez menos os responsáveis pelas políticas públicas voltadas para o setor produtivo conseguirão entender que o problema não é ocasional. Por sua persistência e profundidade, começa a transformar-se em problema estrutural da economia brasileira.
Ainda há tempo para evitar que a situação piore tanto que fique muito mais difícil corrigi-la, mas é preciso que, primeiro, o governo entenda o que ocorre e, depois, admita que o problema existe e é grave e comece a agir na direção correta.
São muitos os fatores que afetam o setor produtivo brasileiro, sobretudo a indústria de transformação, que vem tendo dificuldades cada vez maiores para enfrentar os competidores, tanto no mercado externo como no interno.
São muito expressivos os números que mostram a progressiva perda de competitividade dos produtos manufaturados brasileiros. O jornal O Globo mostrou que, no ano passado, o setor de bens manufaturados registrou um déficit comercial de US$ 94,9 bilhões. Não se trata de uma oscilação, mas de um processo que começou há seis anos (em 2006, o setor registrou superávit comercial, que, naquele ano, alcançou US$ 5,2 bilhões), intensificou-se em conseqüência da crise mundial iniciada em 2008 e mantém-se ativo. Os resultados vêm piorando de maneira persistente.
A crise mundial aprofundou uma tendência iniciada em 2007 (no primeiro trimestre daquele ano, a balança da indústria de transformação registrou saldo positivo), fazendo crescer os déficits até os níveis observados atualmente.
De acordo com um relatório divulgado há dias pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (ledi), o crescimento do déficit comercial da indústria de transformação nesse período não ocorreu de maneira homogênea. Em 2010 e 2011, o saldo negativo foi causado sobretudo pelo rápido aumento das importações, fato que ficou conhecido como "invasão" do mercado por produtos estrangeiros. Embora as exportações continuassem a crescer, as importações cresceram a velocidades bem maiores.
Em 2013, no entanto, embora as importações continuem a crescer, as exportações começaram a diminuir, o que pode tornar ainda maiores os déficits do setor. Essa tendência é observada em três dos quatro segmentos da indústria classificados de acordo com a densidade tecnológica dos produtos. A exceção é a indústria de baixo conteúdo tecnológico, cuja linha de produção inclui itens como alimentos industrializados, bebidas, fumo, produtos de madeira, celulose, papel.
Quanto maior o conteúdo tecnológico, mais rápida tende a ser a deterioração da balança comercial. A balança conjunta da indústria de alta intensidade tecnológica - que atende aos mercados que mais crescem em todo o mundo - e de média intensidade, por exemplo, registrou déficit de US$ 16,3 bilhões no primeiro trimestre, 22,6% maior do que o dos três primeiros meses de 2012.
As causas da perda de competitividade da indústria são conhecidas. Carga tributária excessiva, graves deficiências de infraestrutura, ausência de política efetiva de comércio exterior, escassez cada vez mais aguda de mão de obra adequadamente preparada, entre outras. Sobre isso, o governo nada diz.
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