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Por ANTONIO ATEU
O Euro tem rendido sérios custos para alguns países, no entanto abandonar a moeda pode ser ainda pior.
Os mercados de ações desprezaram o bail-out [ajuda estatal para entidades à beira da falência] de 85 bilhões de euros (R$ 192,1 bilhões) oferecidos à Irlanda em 28 de novembro. Os rendimentos aumentaram não só em relação à Irlanda, mas também a Portugal, Espanha, Itália e até mesmo Bélgica. O Euro despencou – de novo. Com um resgate fracassado após o outro, as afirmações de líderes da União Européia de que a quebra da moeda é impossível vem perdendo credibilidade e isso está gerando questionamentos sobre se o Euro pode sobreviver.
O caso é que cidadãos europeus não podem mais viver dependendo da manutenção da unidade da moeda. Na periferia do continente, alguns países anseiam serem poupados da austeridade dos anos de vacas magras que podem ser necessários para tornar salários e preços competitivos. O grupo liderado pela Alemanha já está cansado de pagar a conta de outros países ineficientes e, como credores, temem sofrer caso o Banco Central Europeu (BCE) inflacione a dívida. No fundo, a suspeita é de que a zona do Euro está condenada a passar por isso mais de uma vez. Então, por que não sair agora?
A encruzilhada
A história financeira é marcada por eventos que passaram rapidamente do impensável ao inevitável: o Reino Unido abandonou o padrão-ouro em 1931, a Argentina abandonou a paridade de sua moeda com o dólar em 2002. No entanto, um colapso do Euro traria também custos técnicos, econômicos e políticos sem precedentes.
Uma quebra pode acontecer de duas maneiras: um ou mais membros fracos (Grécia, Irlanda, Portugal, talvez Espanha) podem sair, aparentemente para desvalorizar sua nova moeda. Em outra projeção, a Alemanha, cansada de pagar a conta alheia, possivelmente em conjunto com a Holanda e Áustria, poderia desistir do Euro e reativar o Deutsche-Mark, que seria mais valorizado.
Em ambos os casos, os custos seriam enormes. No início, as dificuldades técnicas de reintroduzir uma unidade monetária nacional, reprogramando computadores e máquinas automáticas, cunhando moedas e imprimindo novas notas são grandes (foram necessários três anos de preparação para o Euro).
Qualquer pista de que um país economicamente fraco pretendesse deixar a União levaria a uma corrida aos depósitos, enfraquecendo ainda mais bancos em dificuldade. Isso resultaria em controle de capital e, provavelmente, limites de saque bancários o que por sua vez asfixiaria o comércio. Os países que abandonassem perderiam as oportunidades de financiamento externo, talvez durante anos, sofrendo mais adiante de escassez de recursos.
O cálculo seria ligeiramente melhor caso o fugitivo do euro fosse a Alemanha. Haveria corridas bancárias na Europa e os investidores fugiriam dos países fracos o que conduziria à reintrodução de controles de capital. Até mesmo se os bancos alemães recebessem depósitos, seus vários ativos na zona do Euro desvalorizariam -a Alemanha é [hoje] o maior credor do sistema. Por último, os exportadores alemães, que foram grandes contribuidores de uma moeda estável, detestariam ter que lidar com um Deutsche-Mark de valorização acentuada.
Se a ideia de desmembrar o Euro ainda parece uma opção, os riscos políticos detonariam uma reação em cadeia que ameaçaria a estrutura do mercado unificado e da própria União Européia. A União Européia e o Euro têm servido de âncoras no pós-guerra para a Alemanha. Se o país abandonar a moeda, a um custo alto, e deixar o resto da zona se virar sozinha, seu compromisso com a União Européia seria seriamente afetado.
Se um país mais fraco sair, arriscando não só a situação dos bancos, mas também da moeda, estaria exportando seus problemas igualmente para seus vizinhos. Uma vez que se estabelecer o controle de capital em algum mercado financeiro europeu, a moeda ficaria em frangalhos e seria difícil preservar o comércio além das fronteiras da Europa. O colapso do mercado único, o qual já contribuiu muito para unir os países membros, ameaçaria a própria União Européia.
Mesmo que muitos países possam se arrepender de ter aceitado fazer parte da zona do Euro, abandoná-la não faz sentido. No entanto, o fato de que ela deva sobreviver não garante que ela irá conseguir. A única chance para que isso aconteça está nas mãos da rápida organização de líderes europeus.
A recuperação da moeda única
Os líderes europeus vêm sendo vagarosos e tímidos em responder às pressões do mercado. A Grécia, e agora a Irlanda, os forçaram em direção aos bail-outs. A necessidade de empréstimos desses países só foi reconhecida tardiamente e pode não ser capaz de reparar suas dívidas. Isso significa que os credores também sentirão alguma dor.Mesmo se estes países deixassem o Euro, eles teriam que tomar essas medidas para poder prosperar. Além disso, uma reforma não serviria apenas para reavivar economias moribundas, mas também criaria uma chance de crescimento futuro para resguardar a moeda única. Uma reforma seria mais fácil caso países com excedentes (Alemanha, por exemplo) trabalhassem mais para impulsionar sua demanda interna.
Por último, se o Euro deve sobreviver os países credores devem ajudar aqueles com déficit. Poderiam fazer isso diretamente, o Banco Central Europeu poderia dar liquidez aos bancos ou comprar títulos do governo antes que eles percam muito seu valor. O BCE já indicou que pode começar a implementar a medida de novo. A Alemanha detesta a ideia de ajudar ainda mais os países em dívida – devido à falta de agilidade destes em aceitar bail-outs e sua determinação em penalizar os credores. Sua má vontade de subsidiar os fracos e gastadores é compreensível, porém a outra alternativa é pior.
Abandonar o euro não é impossível, mas sim muito caro. Por evitar assumir a possibilidade de que isso aconteça, os líderes europeus falham em tomar as medidas necessárias para reverter a situação.
Tradução de Helena Gertz
Matéria original aqui
Imagem retirada daqui

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