segunda-feira, 15 de abril de 2013

Degringolou de vez, por Gaudêncio Torquato

 


A popular expressão é geralmente usada para traduzir bagunça, caos, confusão, falta de bom senso. Um palmeirense reclama a um corintiano para baixar a bandeira da torcida organizada, Gaviões da Fiel, que tampa sua visão do jogo.

Xingamento vai, xingamento vem. Torcedores dos dois clubes abrem um bate-boca. O torvelinho descamba em pancadaria. Zorra total. Esse roteiro ajuda a declinar o verbo degringolar, que tem sua aplicação bastante intensificada em estádios de futebol, peladas e botecos da periferia, quando emoções etílicas extravasam, deixando escapar os ares da razão.

O que dizer, porém, quando o título deste artigo aponta para um dos três Poderes da Nação? E se este for o Poder Judiciário, considerado o mais sagrado, o mais admirado, o mais aplaudido, por abrigar a função de distribuir a justiça?

Pois esta é, infelizmente, a impressão provocada pela acusação que as três principais entidades de juízes fizeram ao (nada mais nada menos) presidente da Corte Suprema do país, ministro Joaquim Barbosa, a quem acusam de agir de forma antidemocrática, “desrespeitosa, premeditadamente agressiva, grosseira e inadequada para o cargo”.






O destampatório adjetivado lapidou uma resposta a Barbosa, que, ao receber os presidentes das entidades que representam a magistratura - Ajufe, AMB e Anamatra -, insinuou que juízes saem com pires na mão em busca de promoção na carreira, chamou de “líder sindical” um deles, acusou-os de atuar de maneira sorrateira para aprovar novos tribunais regionais federais (“uma irresponsabilidade”), arrematando: “os senhores não representam a Nação; são representantes de classe; não vim para debater com os senhores”.

O presidente do STF é uma figura sem papas na língua. Chicoteia a torto e a direito, intensificando o clima beligerante entre ele e operadores do Direito, principalmente juízes e advogados, nos quais enxerga “conluios” para troca de favores. A fogueira está alta. Ao correr da história do Judiciário, nunca a locução que emana da cúpula e de suas bases chegou a um patamar tão baixo.

A linguagem de feição grotesca que, nesses tempos de espetacularização da política, passou a ser ouvida nos (ex) solenes ambientes do Judiciário tem que ver com a intenção deste Poder de se aproximar da sociedade. Mesmo assim, causa surpresa o destempero verbal de atores a quem cabe interpretar as leis e contribuir para a harmonia social. Vale lembrar o preceito de Bacon: “os juízes devem ser mais reverendos que aclamados, mais circunspectos do que audaciosos”.



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